Segunda, 17 de Dezembro de 2018
Joel Paese

BLOG Diário da Política por Joel Paese

Doutor em Sociologia Política e Professor do Departamento de Sociologia e Ciência Política da Universidade Federal de Mato Grosso.

2017-07-27 14:27:48
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Dostoiévski e a Política - IX

O último artigo abordava o problema da autodissolução do homem, causada pela perda da verdade. Mas por que assim o é? Como afirmei, é pela verdade que se dá a conexão entre o interior e o exterior do homem, de sorte que nos livra do solipsismo. Do contrário, não distinguimos mais o real do irreal, a ponto de tomar um pelo outro. A desorientação se instala na consciência, e esta conduz o indivíduo a um mundo fantasmagórico em que os problemas reais são substituídos pelos problemas imaginários. Resulta, então, bloqueada a possibilidade de se constituir defesas contra os males que, de fato, podem vir a destruir os indivíduos.

Como tudo passa a se resumir a uma projeção do eu — em estado delirante, é claro — motivada pela perda da realidade, os acordos entre as pessoas se tornam impossíveis. Como nada mais é possível de se estabelecer de modo que os objetivos de distintos indivíduos sejam complementares, resulta um estado de anarquia que leva o organismo social à morte, e junto com ele o homem. Vale a pena citar o próprio Dostoiévski: “Abandonaram os ofícios mais habituais, porque qualquer um sugeria as suas ideias, as suas correções, e não conseguiam chegar a um acordo; a agricultura parou. [...] Começaram os incêndios, começou a fome. Tudo e todos morriam.”

Observe-se que não se trata de destruição causada por inimigo externo, mas por autodestruição. É característico da essência do mal, como afirma Tomás de Aquino, aparentar o bem. Se recorrermos a uma imagem, pode-se afirmar que o agente do mal não empurra o indivíduo para o abismo, mas o convence a se jogar. Como é pela realização do ser na existência que este se desvela e, assim, se pode conhece-lo — do contrário é pura ocultação —, a perda da realidade, ao confundi-la com a irrealidade, não permite mais que o indivíduo possa diferenciar o que o redime do que o destrói. Eis a natureza do mal em ação.

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