Segunda, 23 de Julho de 2018
Augusto Tomazini

BLOG Cultura por Augusto Tomazini

2017-04-18 21:50:52
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Que a educação é algo que todos desejam

T.S. Eliot (1988, p. 125) diz que, as pessoas podem ser persuadidas a desejar quase tudo, por algum tempo, se lhes for dito constantemente que é algo a que têm direito e que lhes é negado injustamente. O desejo espontâneo de educação é maior em algumas comunidades do que em outras; geralmente concordamos em que é maior no Norte do que no Sul da Inglaterra, e mais forte ainda na Escócia. É possível que o desejo de educação seja maior onde existem dificuldades no meio de obtê-la – dificuldades não insuperáveis mas que são vencidas apenas à custa de algum sacrifício e privação. De qualquer modo, podemos conjecturar que a facilidade de educação levará à indiferença por ela; e que a imposição universal de educação acima dos anos de maturidade conduzirá a uma hostilidade contra ela. Uma alta proporção de educação geral é talvez menos necessária para uma sociedade civil do que é um respeito pelo aprendizado. Conforme Carvalho (2013, p. 358, apud Diário do Comércio 2009), a ideia de que a educação é um direito é uma das mais esquisitas que já passaram pela mente humana. Educar-se seja um dever jamais parece ter ocorrido às mentes iluminadas que orientam (ou desorientam) a formação (ou deformação) das mentes das nossas crianças. Mais ainda, a experiência universal dos educadores genuínos prova que o sujeito ativo do processo educacional é o estudante, não o professor, o diretor da escola ou toda a burocracia estatal reunida. Ninguém pode “dar” educação a ninguém. Educação é uma conquista pessoal, e só se obtém quando o impulso para ela é sincero, vem do fundo da alma e não de uma obrigação imposta de fora.

Segundo Eliot (1931, p. 67), “a menos que tomemos por educação aquela modestíssima quantidade de conhecimento que pode ser transmitida pela instrução em massa, não temos mais direitos à educação do que temos à felicidade, ao talento ou à beleza. Visto que temos “direitos”, todo homem ou mulher tem o direito de ser educado para alguma função útil na comunidade; mas o que entendemos por educação deve diferir em muito desse tipo.” Para o autor, atualmente parece que estamos empenhados na tarefa de dar algum tipo de educação para todos. A educação é um treino da mente e da sensibilidade, uma disciplina intelectual e emocional. Numa sociedade em que tal disciplina é negligenciada, numa sociedade que usa palavras em lugar de pensamentos e de sentimentos, podemos esperar qualquer tipo de aberração religiosa, moral, social e política, e uma eventual decomposição ou petrificação. E parece que temos pouco a esperar dos representantes oficiais de educação. Hoje os cursos de graduação no Brasil em especifico são o diagnostico em que Dr. Bell publicou em seu periódico com o título de “O declínio da inteligência nos Estados Unidos”, “Não há lugar em que a degradação da função intelectual esteja mais caracterizada e seja mais mortal do que nos cursos de graduação, que parece a muitos observadores estar empenhados em uma espécie de conspiração inconsciente e descuidada para afogar qualquer gênio humano em potencial, que possa ser utilizável, em um mar de mediocridade complacente”- aprofundando mais o diagnostico se produz bacharéis analfabetos funcionais, que mal estão preparados para ganhar a vida. Eliot considera como educação os principais objetos de estudo que atraíam os estudantes do mundo inteiro a Paris eram a Teologia, o Direito Canônico e a Medicina.

Durante o século XIII, juntamente com a Teologia, desenvolveu-se também o estudo da Filosofia. Como preparação para estes estudos existia o equivalente de um ensino secundário ministrado em dois ciclos, conhecidos como Trivium e Quadrivium. O Trivium, também conhecido abreviadamente por "Sermones", isto é,"Linguagem", era constituído dos estudos de Gramática, Retórica e Lógica. O Quadrivium, também conhecido como "Res", isto é,"Coisas", era o estudo da Aritmética, Geometria, Astronomia e Música, esta última entendia mais no seu aspecto teórico do que na sua expressão artística. Tais estudos passaram a fazer parte da Universidade, a qual, portanto, compreendia não apenas os estudos superiores, mas também os secundários. Entrava-se na Universidade aos quinze anos e dela saía-se aos 35 com o título de doutor em Teologia. O aluno cursava primeiramente o Trivium e o Quadrivium e, para daí ser admitido aos cursos superiores, era obrigado a passar por um estágio de alguns anos como professor destas artes na própria Universidade. Os cursos superiores naquela época visavam de uma maneira mais explícita atender um anseio de busca pelo conhecimento por parte do aluno muito mais pronunciado do que hoje em dia. O conhecimento buscado não era tanto uma formação profissional, nem a verdade em alguma área específica do conhecimento, quanto uma visão sintética da própria totalidade do conhecimento. Isto era possível porque na base dos métodos pedagógicos, embora se estimulasse o raciocínio analítico, estimulava-se muito mais algo que é desconhecido pela pedagogia moderna a que se dava o nome de contemplação. Isto pode ser visto claramente em um opúsculo de teoria pedagógica daquele tempo, escrito por Hugo de São Vítor, intitulado “Sobre o Modo de aprender e de Meditar”, de que tiramos as seguintes passagens, indispensáveis para a compreensão. Segundo Hugo de S. Vítor, (1127), Três são as visões da alma racional, o pensamento, a meditação e a contemplação, (que constituem entre si uma hierarquia). O pensamento ocorre quando a mente é tocada transitoriamente pela noção das coisas, ao se apresentar a própria coisa, pela imagem, subitamente à alma, seja entrando pelo sentido, seja surgindo da memória. O pensamento pode ser estimulado pela leitura. A meditação baseia-se no pensamento, e é um assíduo e sagaz reconduzir do pensamento, esforçando-se para explicar algo obscuro, ou procurando penetrar no que ainda nos é oculto.

O exercício da meditação, assim entendido, exercita o engenho. Como a meditação, porém, se baseia por sua vez no pensamento, e este é estimulado pela leitura, duas coisas há que, na realidade, exercitam o engenho: a leitura e a meditação. Na leitura, mediante regras e preceitos, somos instruídos a partir das coisas que estão escritas. A leitura também é uma investigação do sentido por uma alma disciplinada. A meditação toma depois, por sua vez, o seu princípio da leitura, embora não se realizando por nenhuma das regras ou dos preceitos da leitura. A meditação é uma cogitação frequente com conselho, que investiga prudentemente a causa e a origem, o modo e a utilidade de cada coisa. Mas acima da meditação e baseando-se nela, existe ainda a contemplação. A meditação é uma visão livre e perspicaz da alma de coisas que existem em si amplamente espalhadas. Entre a meditação e a contemplação o que parece ser relevante é que a meditação é sempre de coisas ocultas à nossa inteligência; a contemplação, porém, é de coisas que, segundo a sua natureza ou segundo a nossa capacidade, são manifestas; e que a meditação sempre se ocupa em buscar alguma coisa única, enquanto que a contemplação se estende à compreensão de muitas, ou também de todas as coisas. A meditação é, portanto, um certo vagar curioso da mente, um investigar sagaz do obscuro, um desatar o que é intrincado.

A contemplação é aquela vivacidade da inteligência, a qual, já possuindo todas as coisas, as abarca em uma visão plenamente manifesta, e isto de tal maneira que aquilo que a meditação busca, a contemplação possui. Nesta passagem, quando Hugo de São Vitor se refere à contemplação como a uma atividade da inteligência humana que se estende. “À compreensão de muitas ou também de todas as coisas”. De acordo com Carvalho (2013, p. 355, apud O Globo 2011), a abertura para a razão é educação. Educação vem de ex ducere, que significa levar para fora. Pela educação a alma se liberta da prisão subjetiva, do egocentrismo cognitivo próprio da infância, e se abre para a grandeza e a complexidade do real.

A meta da educação é a conquista da maturidade. O homem maduro – o spoudaios de que fala Aristóteles - - é aquele que tornou sua alma dócil à razão, fazendo da aceitação da realidade o seu estado de ânimo habitual e capacitando-se, por esse meio, a orientar sua comunidade para o bem.

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